Minha vez chegou | Sou Mãe

Minha vez, chegou pela primeira vez a mais ou menos 7 anos e a segunda a 3. Meu primeiro parto foi prematuro, de uma bolsa rota nasceu com 32 semanas uma linda menina, com 1.600 kg e 39 cm. Descobri nesse dia, que nunca mais seria a mesma. Fui invadida por sentimentos tão intensos, que mal conseguia me achar no meio de tudo aquilo.

Foram 3 meses tentando engravidar, hoje sei que pouco tempo, mas vivendo ali tudo aquilo, aquela avalanche de emoções e sentimentos, pareceu uma eternidade. 
De repente perdi minha identidade, não era mais eu,  simplesmente passei de mulher, a mãe de uma menina tão frágil e pequena que parecia irreal. Quanto medo senti, quantas angústias passei. Desesperada diante da hipótese de perde-lá, me vi entregue, totalmente entregue ao medo. Foram exatos 28 dias de medo, sofrimento, luta e esperança. Me lembro, que cada vez que eu virava a esquina do hospital, meus batimentos cardíacos começavam a se alterar. Seguia numa caminhada silenciosa e angustiante, nunca sabia como iria encontra-lá, se ainda iria encontra-la, a medida que me aproximava da UTI Neo Natal meu coração acelerava mais e mais, até eu vê-la viva, respirando, ali na incubadora.
Lembrar disso tudo hoje, parece uma realidade tão distante que custo a acreditar que fui eu quem viveu tudo isso. Esse foi o meu pequeno grande milagre, que hoje enche a minha vida de alegria. 
Quando fiquei sabendo que seria mãe pela segunda vez, acho que não estava preparada para notícia. Três anos antes havia ouvido do meu GO que seria muito difícil eu engravidar porque estava muito acima do peso. Todos os meses eu aguardava pelo meu milagre,mas no fundo acho que não acreditava muito, afinal em palavra de médico a gente acredita. 

Foram 3 anos tentando de tudo. Na época não havia na internet tanta informação como hoje. Foi uma luta solitária, sem apoio, sem a compreensão dos que me cercavam, sem ter pra onde correr, um ombro pra chorar. Duvidei que um segundo filho fosse possível, perdi a fé, o chão, as esperanças. Abracei de tal forma a infertilidade que o médico me impôs que ela era real em minha vida. Eu queria um filho, mas meu corpo não me ajudava. Quanto mais eu pensava nisso, pior minha situação ficava. Foi um ciclo complicado, eu não engravidava porque estava acima do peso, tinha que perder peso, mas ao mesmo tempo a dor, a tristeza, a desesperança me levavam para os braços da comida. Era tão reconfortante no início, mas logo depois vinha a culpa e essa devastava ainda mais minha alma, roubava minhas esperanças. 

Foi quando um atraso de 3 dias  me acendeu um sinal de alerta e um beta me trouxe a confirmação. Eu queria muito, mas já tinha “aceitado” (mentira) que não seria possível. Depois do susto a euforia, eu teria mais um bebê.

Meu Deus, que gravidez difícil. Diabetes Gestacional, pressão alta, 3 ameaças de aborto e muito medo de passar por tudo novamente. Perdi a conta de quantas vezes fiquei internada. Picadas, não faço ideia de quantas tomei ….muitos exames, ultrassom diários, e o medo sempre ali caminhando lado a lado com cada dificuldade. Minha angústia maior não era o repouso contínuo, as privações alimentares, os exames cansativos, era o medo de ter mais uma vez um bebê prematuro. Me lembro que com 6 meses de gestação comecei a sentir dores terríveis na virilha, e desesperada, aos berros dizia ao meu marido que não aguentaria passar por mais um parto prematuro, não podia nem imaginar viver tudo aquilo novamente. Graças a Deus, e segundo os médicos ao meu esforço, meu filho nasceu de 39 semanas de parto cesárea. Tão frágil quanto a minha pequena prematura, porém mais forte e saudável.
Minha filha cresceu, mês que vem faz 7 anos,  não apresenta nenhuma sequela dos dias difíceis, tem apenas uma cicatriz pequena no pescoço onde lhe foi colocado o cateter para medicação. É linda, forte, inteligente, carinhosa, teimosaaaaa e muito esforçada, cheia de vida e de saúde.
Meu filho hoje tem 3 anos com altura de 5 e apetite de 10, é magrelo, comilão (a Magali na versão masculina)amoroso, exigente, temperamental, e saudável.
Tudo o que passei para te-los hoje comigo, me deixou cicatrizes profundas na alma, descobri antes mesmo de te-los o real significado da frase “Padecer no paraíso”, e posso dizer que é muito mais que isso, é simplesmente nunca mais ser a mesma, é sentir tudo com muito mais intensidade, é temer perde-los constantemente, é sonhar com um futuro brilhante, é nunca mais ver uma reportagem sobre drogas com os mesmos olhos, é ter a impressão que seu coração dilatou para conseguir suportar tanto amor.

Para as desavisadas, faço um alerta, a maternidade é algo mágico, sublime, o melhor e maior presente que uma mulher pode receber, mas doloroso na mesma proporção. 

Junto com a maravilha da maternidade, ganhamos um coração mais sensível, medroso, protetor e por que não dizer egoísta.Embora muitas não admitam, adoraríamos ter nossos pequenos, para sempre pequenos, seguros em baixo de nossas asas. 
Ouvir ou dizer que criamos os filhos para o mundo, e que um dia eles criam asas e voam sozinhos, é como enfiar uma faca em nosso peito, mas nos traz a uma realidade dolorosa mais verdadeiramente real. 
É assim que tem que ser, é assim que é, nossos filhos não são nossos, são deles mesmos e do mundo. A nós foi concedida a dádiva de cuida-los por tempo determinado, e prepara-los para que se cuidem sozinhos. Se conseguirmos passar a eles a mensagem e os ensinamentos corretos, teremos cumprido nossa missão e Deus mais uma vez nos enviará presentes, os netos. 

Nessa fase ainda não cheguei, mas há quem diga que ser avó é ser mãe duas vezes, então acho que é sofrer duas vezes também. Só me resta cumprir bem minha missão como mãe e aguardar para estragar os netos com mimos e carinhos. Quando chegar lá prometo que conto tudo a vocês.

Pé no chão e esperança no coração sempre !
Abraços
Tatiana Costa

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