Relato de Parto Parte II – A chegada de Nina Valentina

Nesse momento tive certeza de que Nina nasceria naquele dia.
Chegando ao hospital fui atendida rapidamente e já encaminhada para
observação na enfermaria. Novos exames foram pedidos, cardiotoco refeito e uma
mistura louca de sentimentos surgiu dentro de mim. Fui para consulta sozinha
e no momento da internação também estava sozinha, mais uma vez era eu e minha
pequena contra as adversidades que nos cercavam.
Dei entrada na maternidade as 11:45 hrs e vivi um dos dias mais longos
da minha vida.

Assisti muitas histórias, observei muita gente e pude perceber como as
pessoas reagem de forma diferente em momentos de medo e dor.
Havia uma cigana de cerca de 19 anos em trabalho de parto ativo, 5 dedos
de dilatação, contrações ritmadas mas ainda não absurdamente dolorosas, tudo
caminhava para um lindo parto normal mas sua mãe, que havia passado por 6
cesáreas, berrava pragas e amaldiçoava meio mundo exigindo uma cesárea para sua
filha que tinha todos os dentes cobertos de ouro e a chance de traz seu filho
ao mundo de uma forma mais natural.
Vi ali muito rosto franzido de dor, mas vi também muitos sorrisos de
satisfação e emoção. Elas seriam mães, teria em seus braços o maior amor do
mundo em poucas horas e isso era o bastante para apagar ou diminuir todo o
resto.
Lá pelas 14:20 eu ainda estava em observação, quando percebi uma
movimentação estranha ao meu redor. Uma mulher que aparentava seus 38 anos, já
com roupa hospitalar, sem demonstrar dor ou qualquer outra emoção, deitou na
cama ao lado para monitorar o coração de seu bebê. Enfermeiros começaram a
surgir de todos os lados, ligações eram feitas uma atrás da outra e a
curiosidade tomou conta de mim.
Pude ouvir perfeitamente toda a conversa. Era sua segunda gestação, sozinha,
desempregada e responsável por uma mãe doente ela carregava o fruto de uma
gravidez indesejada. Ela estava quase totalmente dilatada, o cardiotoco
mostrava contrações fortes, mas seu semblante era frio e reservado. “Eu não
quero mesmo essa criança, não quero vê-la ao nascer, não quero amamenta-la, não
quero sequer que a coloquem perto de mim , não quero vínculos, não quero me
apegar.
Eu mal podia acreditar no que ouvia. Eu ali no fim de uma gestação de
alto risco super difícil, lutando pela saúde e pela vida do meu maior bem e ela
simplesmente abrindo mão de tudo, jogando fora o presente lindo que Deus havia
lhe dado. Mas sua última frase me fez perceber que nem eu e nem ninguém podia julgar a atitude e os sentimentos daquela mulher.
Ao ouvir da enfermeira que ela iria se arrepender mais tarde ela
respondeu com um sorriso de dor nos lábios.
“Eu vou me arrepender quando ela assim como a irmã maior me olhar com
fome e eu não tiver nada pra por no prato dela, eu vou me arrepender sim moça,
mas se eu negar a ela a oportunidade de ter uma vida de verdade. Não estou
entregando minha filha porque não a amo, estou entregando minha filha porque a
amo demais pra deixa-la sofrer ao meu lado.
E terminou com as palavras que me fizeram entender porque tudo tinha que
ter acontecido ali ao meu lado. “ Tanta mulher nesse mundo sem poder e
desejando ter um filho e eu tendo um mas nao podendo criar. Sou um instrumento
de Deus, hoje vou dar a uma mulher a chance de ser mãe.
O dia passou, a médica pediu jejum e fui monitorada de 20 em 20 minutos.
Os exames chegaram por volta das 15:45 e com eles a confirmação de pré
eclampsia, Nina precisava nascer o quanto antes.
Para o meu azar a maternidade que é um hospital escola estava lotada e o
número de partos daquele dia era muito grande.
Minha mãe apareceu no momento exato de assinar minha internação e já
ligou para meu marido avisando que chegaria para ficar com as crianças para que
ele pudesse assistir ao parto.
Por volta das 19:15 fui preparada pra subir ao CO ( centro obstétrico).
As 20:00 já passava pela última entrevista antes da cirurgia.
As 20:15 já estava na sala onde Nina nasceria. Olhei ao redor e senti
medo, todos os médicos eram muito jovens, meu anestesista parecia nem ter barba.
Pedi a Deus que ali estivessem os residentes mais bem preparados do mundo e me
preparei para a anestesia. Foram 6 picadas na coluna, 5 agulhas entortadas. 
A
primeira não pegou, tive que me sentar e refazer, mais 2 picadas e ok, pernas
quentes e adormecendo.
Meu marido então foi chamado e se sentou ao meu lado. Logo senti o
cheiro do bisturi me cortando e queimando ao mesmo tempo.
A pressão estava alta e tive uma leve taquicardia após a anestesia.
Cerca de 15 minutos após o inicio da cirurgia meus batimentos começaram a cair.
70…60…50…40… Marido de olhos arregalados me perguntava se eu estava
bem, o anestesista levantou assustado e se colocou ao meu lado e me fez a mesma
pergunta que eu sinceramente mal tinha forças pra responder. Não enxergava
muita coisa nesse momento, mas sabia que se eu me entregasse tirariam meu
marido do meu lado e eu não queria estar sozinha dessa vez. Respirei fundo e
disse estar bem. Puxei o ar mais uma vez com força  e pedi a Deus que me desse condições de estar
acordada quando minha filha nascesse. Ele aplicou algo no meu soro, meus
batimentos subiram e enfim me senti de fato melhor.
Não sei como foi ou será para vocês, não sinto dor, mas sinto todos os
movimentos que são feitos, sinto onde me tocam, enfim, não perco totalmente a
sensibilidade. Por isso, senti exatamente o momento em que tirariam a Nina de
mim e avisei meu marido. “ela vai nascer agora”.
Segundos depois um choro forte e estridente encheu a sala. Meu coração
se encheu de alivio e as lágrimas desceram sem controle. Nina Valentina nasceu
as 21:14 do dia 01/10/2014 pesando 3.155 e medindo 50.5 cm.
Ao ver seu rostinho, meu Deus, quanto amor. Um filme passou pela minha
cabeça. Toda luta, toda solidão, tudo o que passamos juntas, eu por ela e ela
por mim, tinha chegada ao fim. Ela estava ali, perfeita e saudável. Chorei um
choro emocionado, aliviado. O nascimento dela, minhas lágrimas copiosas, me
libertaram e eu renasci ao ver minha filha nascer.
Logo a levaram pois ela precisava de alguns cuidados mais urgentes,
principalmente por ser rn de uma gestante diabética e em pré eclampsia. Na
verdade precisavam saber se tudo aquilo tinha afetado sua saúde de alguma
forma.
Infelizmente não retornaram com ela porque a sala estava com o ar ligado e
ela precisou ser aquecida. Mas a neonatologista veio me trazer notícias e me
tranquilizou ao afirmar que ela nasceu muito bem e estava ótima.
Fui para sala de recuperação meia hora após seu nascimento e Nina já
pode mamar. Ela ficou comigo o tempo todo, alias como sempre, minha maior
companheira.
Fiquei 5 horas na sala de recuperação, voltei a mexer as pernas cerca de
1 hora e meia após o fim da cirurgia. Subimos para o quarto por volta das 4 da
manhã. Nina tomou seu primeiro banho e eu o meu em seguida. Nos acomodamos e eu
a tive nos braços com mais tranquilidade.


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Examinei com cuidado cada pedacinho do seu corpo, cada pequeno detalhe,
senti seu cheiro único, a apertei forte  em meus braços e me senti pronta para seguir.

Minha gestação não foi fácil, não só pelos problemas da gravidez em si
mas pela avalanche de problemas que tomaram conta da minha vida nesse momento.
Foi tudo muito difícil, e apenas eu sei exatamente tudo o que passei e vivi,
mas é impressionante como o nascimento de um filho consegue apagar toda a dor,
toda a aflição, toda dúvida de uma mulher. Nina Valentina nasceu e nesse dia eu renasci.

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26 Comentários

  1. Tati que relato mais emocionante, me arrepiei com a história da mulher que tinha que dar a filha por não ter condições. Arrepiei aqui com tudo o que vc falou… e sinceramente em cada frase sua falando do nascimento da Nina fiquei imaginando quando será a minha hora de dizer que não foi fácil, mas eu venci.

    Beijos, e muita saúde e felicidades para vocês.

  2. Nossa Tati,sua historia foi emocionante do começo ao fim,mas graças a Deus deu tudo certo,vcs estão bem Deus é mesmo Maravilhoso não é?Voce esta agora com o seu milagre da vida dando muito amor e carinho pra ela…Bjs e muita felicidades,amor,saude e tranquilidade pra todos.

  3. TAti, Deus seja Louvado pela vida de vocês !!
    lindo testemunho, em relaçao a moça tambem que vc falou que não podia ficar com a filha , no primeiro instante julgamos mais depois dá para compreender o desespero dela … que Deus olhe para ela e ajude-a também. Tudo de bom pra vcs Muita Saude ! bjs

  4. Parabéns e muita saude para as duas, impossivel não se emocionar…
    Sou tentante e esse é o meu 1 ciclo de tentativas, fiquei muito emocionada mesmo com a sua história, e estou seguindo todas as suas dicas para chegar no meu positivo e com muita saude. Bjus e Muitas Felicidades, Mayara Kaminski

  5. ola preciso muito que vc tire uma duvida pra mim, estou tentando engravidar no dia 2/10/14 fiz uma ultratransvaginal e o medico disse que não estava ovulando e queria me ver na terça dia 7/10/14 , nesse dia ele disse que estava ovulando. gostaria de saber uma coisa meu marido na quinta 2/10 não tivemos relações ate o dia 7 porque ele iria fazer o espermograma então não podia fazer sexo nem se masturbar, isso faz alguma diferença ? por começarmos a nos relacionar no dia que eu estava ovulando? nesse dia eu tive um pequeno sangramento por causa da ovulação e depois parou. mesmo antes ter ficado sem relações sexuais tenho chances de engravidar? preciso muito da sua resposta pois por enquanto não consegui falar com um medico! bjos!

  6. Oi Tati parabéns,que DEUS abençoe você e suas princesinha seu relato é emocionante amo o jeito com que você conta as histórias a sua sensibilidade, de ouvir……..e procurar não julgar também faz o leitor repensar valores,acho que por isso que é tão Abençoada e importante para NOS TENTANTES………….olha até rimou fico feliz de saber que deu tudo certo, seu relato é importante para nos fortalecer a cada dia Beijos de uma tentante que logo vai voltar a ativa.

  7. Parabéns Taty. Fiquei emocionada com o seu relato Deus é bom e quando ele quer operar na vida da gente ele não pede licença pra ninguém né. Que Deus cubra vc e sua família de muitas bênçãos viu. Sobre a Nina Valentina ela é encantadora parabéns pela sua grande vitória :*

  8. Amiga estou sem palavras… Confesso que senti medo, insegurança… Mais sua garra será um exemplo e uma fortaleza para mim. Com fé em Deus tudo dara certo. Como você diz, já deu!!! Parabéns, que Deus abençoe voce e toda a familia a cada dia e todo sempre…. Te admiro mais a cada dia… Bjs enormes

  9. Eu tbm tive uma gravidez muito complicada, mais agradeço a Deus todos os dias por ter me dado meu pequeno, sou apaixonada e realizada. Não me lembro de como era antes dele, só consigo ver o hoje e planejar nosso futuro. Parabéns pela força e dedicação a Nina, é lindo esse amor.

  10. Nossa Tati, q lindo seu relato de parto, o mas bonito q já li até aqui, foi como se pudesse vivenciar cada momento descrito, me emocionei demais… Deus sabe mesmo o q faz e nada foge ao controle de suas mãos, e vc é canal de bençãos!!!
    Deus abençoe a Nina, a vc e a toda sua família!!!

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